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"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18
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30 de novembro de 2010

Uma sobrevivente da visão celular de Rene Terra Nova conta TUDO!


Roselaine Perez


Eu tive que digerir depressa demais o amontoado de quesitos que a Visão Celular possuía, parecia que tinha mudado de planeta e precisava aprender o novo dialeto local, e urgente, para conseguir me adaptar.

Ganhar / consolidar / discipular / enviar, almas / células/ famílias, Peniel, Iaweh Shamá, honra, conquista, ser modelo, unção apostólica, atos proféticos, mãe de multidões, pai de multidões, conquista da nação, mover celular, riquezas, nobreza, encontro, reencontro, encontros de níveis, resgatão, Israel, festas bíblicas, atos proféticos, congressos, redes, evento de colheita, prosperidade, recompensa, multidão, confronto, primeira geração dos 12, segunda geração dos 12, toque do shofar, cobertura espiritual, resultado, resultado, resultado, etc...

Era início do ano de 2002 quando fomos a Manaus, eu e meu marido, para recebermos legitimidade, enquanto segunda geração dos 12 do Apóstolo Renê Terranova no estado de São Paulo.As exigências eram muitas e muito caras:

  • Compra do boton sacerdotal num valor absurdo. 

  • Hospedagem obrigatória no Tropical Manaus, luxuoso resort ecológico, às margens do Rio Negro, não um dos mais caros, mas “O” mais caro de Manaus (conheci Pastores que venderam as calças para pagar 2 diárias no tal resort e outros que deixaram a família sem alimentos para entrar na fila dos zumbis apostólicos, num Thriller nada profético).
  •  Trajes de gala Hollywoodianos.
  •  Participação obrigatória num jantar caro da preula após a cerimônia, tendo como ilustre batedor de bóia nada menos que o Apóstolo Renê e seus cupinchas.
  • Tudo isso para ter a suprema dádiva de receber a imposição de mãos do homem, com direito a empurradinha na oração de legitimação e tudo ( uhuu!).

Nem mesmo em festa de socialite se vê exageros tão grandes em termos de exibição de jóias, carros, roupas de grife e todo tipo de ostentação escandalosa.

Hoje, sem a cachaça da massificação na cabeça, sinto vergonha e fico imaginando como Jesus seria tratado no meio daquela pastorada.

Ele chegaria com sandálias de couro, roupa comum, jeito simples, não lhe chamariam para ser honrado, nem tampouco perguntariam quem é o dono a cobertura dele porque deduziriam que certamente dali ele não era.

Estive envolvida até a cabeça – porém não até a alma – na Visão Celular durante quase 5 anos, em todas as menores exigências fui a melhor e na inspiração do que disse Paulo "...segundo a justiça que há na lei dos Terra Nova, irrepreensível."


 Entreguei submissão cega às sempre inquestionáveis colocações e desafios do líder, sob pena de ser rebelde e fui emburrecendo espiritualmente.

Me pergunto sempre por que entrei nisso tudo e depois que este artigo terminar talvez você me pergunte o mesmo, mas minha resposta tem sempre as mesmas certezas:

-->  Todos nós precisamos amadurecer e, enquanto isso não acontece, muitas propostas vêm de encontro às fraquezas que possuímos e que ainda não foram resolvidas dentro de nós.

A partir da minha experiência pude enxergar as três principais molas propulsoras que fazem funcionar toda essa engrenagem:

1) A lavagem cerebral

A definição mais simples para lavagem cerebral é “conjunto de técnicas que levam ao controle da mente; doutrinação em massa”.

Em todas as etapas da Visão Celular se pode ver nitidamente vários mecanismos de indução, meios de trabalhar fortemente as emoções onde o resultado progressivo desta condição mental é prejudicar o julgamento e aumentar a sugestibilidade.

 Os métodos coercivos de convencimento, os treinamentos intensos e cansativos que minam a autonomia do indivíduo, os discursos inflamados, as músicas repetitivas e a oratória cuidadosamente persuasiva são recursos que hoje reconheço como técnicas de lavagem cerebral, onde há mudanças comportamentais gradativas e por vezes irreversíveis.

2) Grandezas diretamente proporcionais

O Silvio Santos manauara é uma incógnita.Se em por um lado ele é duro e autoritário, noutro ele é engraçado, carismático e charmoso. Num dos Congressos em Manaus, me levantei da cadeira para tirar uma foto dele, que imediatamente parou a ministração e me chamou lá na frente. Atravessei o enorme salão com o rosto queimando, certa de que iria passar a maior vergonha de toda a minha vida, que o “ralo” seria na presença de milhares de pessoas e até televisionado.Quando me aproximei não sabia se o chamava de Pastor, Apóstolo, Doutor, Sua Santidade ou Alteza, mas para minha surpresa ele abriu um sorriso de orelha a orelha e fez pose, dizendo que a foto sairia bem melhor de perto.A reunião veio abaixo, claro, todos riam e aplaudiam aquele ser tão acessível e encantador. 



Acontecimentos assim, somados à esperta e poderosa estratégia de marketing que Terra Nova usa para transmitir suas idéias, atraem para ele quatro tipos de pessoas:

  • As carentes de uma figura forte (o povo simples que chora ao chamá-lo de pai).
  •  As que desejam aprender o modelo para utiliza-los em seus próprios ministérios falidos.
  • Aquelas que desejam viver uma espécie de comensalismo espiritual, que vivem de abrir e fechar notebooks para ele pregar, ganhando transporte e restos alimentares em troca, as rêmoras da Visão.
  • As sadomasoquistas espirituais. É tanta punição, tanto sacrifício, tanta submissão, que fica óbvio que muita gente se adapta a esse modelo porque gosta de sofrer. As interpretações enfermas do tipo “hoje eu levei um peniel do meu discipulador, então me agüentem que lá vou eu ensinar o que aprendi.”, eram a tônica das ministrações.
Pode acreditar que essas quatro classes de pessoas representam a grande maioria neste planeta.

3) A concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e a soberba da vida

O conceito da Visão Celular mexe demais com o ego, é sedutor, encantador, promissor, põe a imaginação lá no topo, puro glamour. A ganância que existe dentro do ser humano é o tapete vermelho por onde a desgraça caminha. Essa tem sido uma das causas pela queda de tantos e tantos pastores, por causa das promessas de sucesso rápido e infalível.

Renê não sabe com quem está lidando, mas é com gente!

 Ele talvez ignore (não que ele seja ignorante) que cada ser humano é um universo e que as informações vão reproduzir respostas completamente inesperadas em cada um.

EU ASSISTI, na terra do Terra Nova, o “tristemunho” de uma discipuladora que, para confrontar e educar uma discípula, havia chegado à loucura de bater nela, para que a mesma parasse de falar em morrer. Esse é o argumento dos incapazes, dos que não conseguem levar cada triste, cada suicida ou deprimido às garras da graça de Cristo, mas que querem se fazer os solucionadores das misérias do povo.

Eu tenho até hoje péssimas colheitas dessa péssima semeadura, assumo meus erros e me arrependo profundamente de cada um deles:

  •  Quase perdi Jesus de vista
  • Minha família ficou relegada ao que sobrava de mim.
  • Minha filha mais velha, hoje com 23 anos, demorou um bom tempo para me perdoar por eu ter repartido a maternidade com tantas sanguessugas que me usavam para satisfazer sua sede de poder.
  • Minha mãe teve dificuldade para se abrir comigo durante muito tempo porque, segundo ela, só conseguia me ver como a Pastora dura e ditadora. Tenho lutado diariamente para que ela me veja somente como filha.
  • Fui responsável por manter minha Igreja em regime escravo (mesmo que isso estivesse numa embalagem maravilhosa), por ajudar a alimentar a ganância de muitos, por não guardá-los dessa loucura.
  • Colaborei com a neurotização da fé de muitos, por causa da perseguição desenfreada pela perfeição e por uma santidade inalcançável.
  • Fiquei neurótica eu mesma, precisando lançar mão de ajuda psicológica devido a crises interiores inenarráveis, ao passo que desenvolvia uma doença psíquica de esgotamento chamada Síndrome de Burnout*, hoje sob controle.
  • Vendi a idéia da aliança incondicional do discípulo com o discipulador, afastando sutilmente as pessoas da dependência de Deus.
  • Invadi a vida de muitos a título de discipulado, cuidando até de quantas relações sexuais as discípulas tinham por semana, sem que isso causasse ofensa ou espanto.
  • Opinei sobre o que o discípulo deveria comprar ou não, tendo “direito” de vetar o que não achasse conveniente. A menor sombra de discordância por parte do discípulo era imediatamente reprimida, sem qualquer respeito. Quando isso acontecia os demais tomavam como exemplo e evitavam contrariar o líder.
  • Aceitei que fosse tirada do povo a única diretriz eficaz contra as ciladas do diabo: a Bíblia. Não que ela não fosse utilizada, mas isso era feito de forma direcionada, para fortalecer os conceitos da Visão. Paramos de estudar assuntos que traziam crescimento para nos tornarmos robôs de uma linha de montagem, manipuláveis, dogmatizados.
  • Fomentei a disputa de poder entre os irmãos ignorando os sentimentos dos que iam ficando para trás.
  • Perdi amigos amados e sofri demais com estas perdas. Alguns criaram um abismo de medo, que é o de quem nunca sabe se vai ganhar um carinho ou um tapa, um elogio ou um peniel, mas sei que esse estigma está indo embora cada vez mais rápido. Outros me abandonaram porque não aceitaram uma Pastora normal, falível e frágil. Eles queriam a outra, a deusa, aquela que alimentava neles a fome por ídolos particulares.
Dentro da Visão, nossa Igreja esteve entre as que mais cresceram e deram certo na região, mas desistimos porque, acima de todo homem e todo método, somos escravos de Cristo.

Talvez o mais difícil tenha sido a transição do meu eu, a briga daquilo que eu era com o que sou hoje até que se estabelecesse Cristo em mim, esperança da glória.

Prossigo, perdoada pelo meu Senhor, tomando minhas doses diárias de Graçamicina, recriando meu jeito de me relacionar e compreender mais as falhas alheias e as minhas próprias.

Prossigo, reaprendendo a orar e adorar em silêncio, livre dos condicionamentos, admitindo meus cansaços, me permitindo não ser infalível, sendo apenas gente...Pastoragente!

Roselaine Perez, a pastoragente para o Genizah

* SÍNDROME DE BURNOUT:Distúrbio psíquico, de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso.Se caracteriza por exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa emocional). Resultado de um esforço extremo, um desgaste onde o paciente se consome física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e intolerante, com predileção para aqueles que mantêm uma relação constante e direta com atividades de ajuda. Ocorre geralmente em pessoas altamente motivadas, que sentem uma discrepância entre aquilo que investem e aquilo que recebem.

25 de setembro de 2009

HABACUQUE: ORAÇÃO E RESPONSABILIDADE

Isaltino Gomes Coelho Filho


Habacuque é um profeta que começa seu livro com oração. Diferentemente de Sofonias (Sf 1.1), Ageu (Ag 1.1), Zacarias (Zc 1.1) e outros a quem a palavra do Senhor veio e que começam o livro com sua vocação, em Habacuque é a palavra do homem que vai ao Senhor. Não se inicia com a chamada ao ministério profético, mas com a ida do profeta a Deus.

Ele começa com um "até quando?", expressão usada por Deus para questionar o seu povo (Nm 14.11), e pelo Senhor Jesus, para repreender os discípulos (Mt 17.17). O termo tem sempre uma conotação de interpelação. É, então, uma oração um tanto desaforada, diríamos. Ele cobra de Deus um término a um estado de coisas que lhe é inaceitável (Hc 1.2). Tamanha ousadia só será encontrada, mais tarde, na cobrança feita pelos que foram mortos por causa da palavra de Deus e do seu testemunho, os mártires de Apocalipse 6.10. Não é uma oração de entrega, portanto, mas de cobrança.

Apesar de questionadora, não é uma oração desabafo, que logo cessa. Em 2.1 ele se põe sobre a torre de vigia, em posição de espera para ver o que o Senhor lhe dirá. Ele fala, mas quer ouvir. Na realidade, faz questão de ouvir. Esta postura é ainda mais surpreendente quando procuramos entender o que o texto bíblico quer dizer com "e o que responderei no tocante à minha queixa" . A sentença não faz sentido. A melhor compreensão é "e o que responderá ele no tocante à minha queixa". Algum escriba deve ter trocado o sentido, movido pelo senso de reverência, surpreendido pelo fato de que o profeta ousou questionar a Deus e trazê-lo a um tribunal, onde o inquire. E isto não é invenção do articulista, mas observação encontrada em qualquer comentário bíblico conservador.

Habacuque é um profeta que ora. Sua oração é produto de um senso de responsabilidade. Ele vê o ímpio cercar o justo e perverter a justiça (1.4). Vê a violência, a iniqüidade e a opressão. Estas coisas o indignam e ele as leva a Deus pedindo providências. É um intercessor, preocupado com o sofrimento do povo.

Talvez um dos grandes problemas que a igreja evangélica contemporânea enfrente hoje seja o acentuado sentimento de individualidade, em que as pessoas se preocupam com seus problemas e suas necessidades, sem ver a situação do mundo. Há um egoísmo enorme no cenário evangélico contemporâneo. Muitos estão preocupados com sua prosperidade pessoal, com o livrar-se de seus problemas, com correntes (variação das novenas católicas) de libertação para obter melhora de vida, etc. Não há nenhuma visão social ou de grupo, como o profeta manifestou. Sua indignação, que o levou a uma oração exasperada, foi pelo sofrimento do seu povo. A oração de boa parte dos cristãos contemporâneos é pela sua melhora pessoal.

Mais que palavras, oração é desejo de comunhão com Deus. Este deve ser o objetivo maior. Mas a oração intercessória, além da comunhão com Deus e do amor pelos que intercedemos, envolve também indignação ou, pelo menos, inconformismo. É por não aceitar determinada situação que intercedemos. É por não aceitar que haja perdidos sem quem lhes pregue o evangelho que intercedemos por missionários e missões. É por não estarmos conformados com a tibieza da igreja que oramos por avivamento. Uma oração autêntica, que brote do fundo da alma, terá sempre um elemento de inconformismo e até mesmo de indignação. "Até quando?" não é um desaforo dito a Deus, mas a expressão de um coração aflito por ver o mal campear livre e não aceitar a situação. É um tipo de oração que deveria estar em nossos lábios com razoável assiduidade.

Na sua obra Cristo e o Sofrimento Humano, Stanley Jones faz algumas observações extraordinariamente lúcidas sobre o problema do sofrimento nas grandes religiões. Diz ele que Buda, pela pregação do alheamento, reduz a vida humana à existência do vegetal e chama a isso de vitória. Isto eqüivale, diz ele, a cortar a cabeça, quando ela doer. Sobre o Islã, que significa, literalmente, "submissão à vontade de Deus", diz ele que ensina a aquietar-se e acalmar-se diante das injustiças. Prega-se o conformismo. Cada um vive a sua vida, e pronto. Afinal , tudo é vontade de Deus. Tanto é assim no pensamento islâmico que nossa palavra "oxalá" (tomara, assim seja) é o aportuguesamento do árabe en sha allah, "se Alá quiser".

Marrou, em Teologia da História, fala do homem que se beneficia da situação histórica e se aliena do sofredor, pensando que não tem missão social para cumprir: "Deus está no seu céu: tudo vai bem na terra: cada um deve apenas cultivar com atenção o seu próprio jardinzinho". É a figura do alienado que vê seu mundinho particular como sendo a maior preocupação de Deus. Seus pequenos negócios devem ocupar tanto a Deus que este deve mover céus e terra e deslocar legiões de anjos para aplainar o caminho, abrandando o coração do gerente do banco para aquele foi tomar o empréstimo para ampliar seus negócios, como ouvido em programa televisivo. Não importa que haja guerra e fome em outros lugares. Deus está ocupado com ele, seu filho predileto e especial, que precisa de um carro novo. A pessoa, com esta ótica, cuida apenas de si. Não tem visão social nem histórica. Na realidade, é provável que nem tenha de vida cristã, nos moldes bíblicos.

Há muitos cristãos cuidando do seu jardinzinho. Seu dente de ouro (já em desuso, mas devendo ser substituído dentro de algum tempo por nova grife evangélica), sua bênção pessoal, sua prosperidade, a troca do seu calhambeque velho por um Ômega que ele "visualizou" e do qual "engravidou" em oração, por exemplo, são sua preocupação. Mas e a fome de milhões de pessoas? E o morticínio em guerras sem sentido? E Angola, Ruanda, Chechênia? E o massacre social de milhões de deserdados? Onde está o senso de responsabilidade? E o senso de historicidade, de ter um lugar na obra de Deus? E a realização por ser útil e por ajudar alguém? Há hoje muito hedonismo espiritual em nossos arraiais. Observa-se a ausência de espírito serviçal. O coração de um cristão deveria chorar diante das injustiças e se revoltar por ver a fome do trabalhador e o desperdício nababesco de um luxo sibarita do espertalhão desonesto que se beneficia da miséria alheia. Infelizmente nota-se mais orações tipo "cuida de mim" do que "até quando?". Não é errado pedir o cuidado de Deus para si. O erro é quando só se pede por si. Na oração do pai-nosso, Jesus não usou o pronome eu, mas o nós. É o "nosso pão", as "nossas faltas", "não nos deixes cair". Ele nos inseriu num contexto de socialidade, mas resvalamos sempre para a individualidade. Ele não ensinou os discípulos a dizerem "meu Pai", mas "pai-nosso". Ele veio para banir o eu e afirmar o nós, na nossa compreensão espiritual.

Voltando a Habacuque: sua oração não foi tanto por si mesmo. Foi por ver o direito torcido. Foi porque o pobre não tinha quem o defendesse. Foi por ver a injustiça triunfar. A preocupação com os outros é manifestação de maturidade. E é evidência de maturidade espiritual quando o objetivo de nossas orações não é o nosso bem-estar, mas o bem-estar do próximo.

Habacuque recebeu uma resposta dura. Em 2.20, Deus lhe disse: "Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra". É uma repreensão. É como se Deus dissesse: "Habacuque, ainda estou no poder. Não perdi o lugar. Cale-se toda a terra, inclusive você". Mas a verdadeira oração implica em ser repreendido. O homem que ora deve esperar ser corrigido. E, em vez de mágoa ou depressão, a resposta de Deus, corrigindo-o, encheu o profeta de confiança, a ponto de compor o capítulo 3, um autêntico salmo de esperança. Tão destoante do resto do livro que alguns estudiosos acham que não faz parte dos escritos do profeta (e, na minha opinião, faz). Se ele começou com aflição (1.2), terminou com confiança (3.17-19). Porque abriu o coração, porque se indignou, porque interpelou. E porque, assim é o caráter de Deus, o Senhor lhe respondeu, porque responde aos aflitos.

Esta é uma grande lição de Habacuque. Mais que frases feitas tipo "orar é invadir o céu" (que coisa terrível!), o profeta nos ensina que orar é abrir o coração, confiantemente, diante de Deus. É expressar indignação. É ter visão social e senso de responsabilidade pelo que sofre. Que nossos olhos sejam abertos para entendermos a profundidade do que seja orar. E que tenhamos senso de responsabilidade, intercedendo pelos que sofrem e são espoliados. Que nunca vejamos a vida cristã do ponto de vista tão materialista como alguns têm visto: meu bem-estar, minha prosperidade e meu progresso pessoal. Que haja dor em nosso coração por um mundo que precisa de intercessores.