10 de novembro de 2012

A Bela cega e a Fera ferida.


Por Hermes C. Fernandes
Havia um casal que se amava muito, causando a admiração de todos à sua volta. Era um casal incomum. Ambos tinham deficiências físicas. O rapaz tinha um rosto desfigurado por conta de um acidente que sofrera e que também lhe deixara manco. A moça, apesar de muito bonita, era cega.
Um dia aquele rapaz descobriu que poderia doar suas córneas para a sua namorada, e que isto lhe devolveria a visão.  Ele não precisaria ficar cego. Bastava doar um dos seus olhos e sua amada poderia enxergar.
Enquanto sonhava com esta possibilidade, ele perguntou a si mesmo:
- E se ela me vir como eu sou, será que ainda vai me amar?
Apesar do risco, ele resolveu sacrificar um dos seus olhos, e doá-lo à sua amada.
No dia em que tirou os curativos, ele estava ansioso com a sua reação.
A primeira pessoa que ela viu foi o médico que a operou. Por sinal, um sujeito afeiçoado.
Sua vista ainda estava embaçada, quando olhou ao redor da sala à procura do seu amado. Não havia ninguém lá. Desesperado, ele deixou o consultório e saiu correndo hospital afora.
- Ela não vai me aceitar do jeito que sou. Não depois de ter visto aquele médico boa-pinta. Ela é muito linda para mim.
Já estava decidido a nunca mais aparecer, quando o celular tocou:
- Alô! É você, amor? Por que não me esperou? Eu queria que você fosse a primeira pessoa que eu visse depois de ter minha visão restaurada.
Houve silêncio do outro lado. Ouvia-se apenas o respirar ofegante de quem havia saído às pressas.
- Ok. Já sei o que está havendo... Pelo menos, imagino. Quem disse que me importo com a sua aparência? O que me cativou em você foi a sua sinceridade e amor. No nosso caso, não foi amor à primeira vista, mas amor à primeira aproximação.  Se hoje posso ver, devo isso a você, amor.
Criei esta singela parábola no afã de incentivar aos pastores a que não escondam de suas ovelhas a sua fraqueza e humanidade. E nem desistam de revelar-lhes a verdade do Evangelho, ainda que isso lhes dê um senso crítico tão aguçado que nem vocês mesmos sejam poupados. Quem, de fato, nos amar, não nos deixará quando perceber que não somos os super-homens que imaginavam que fôssemos.
“Antes em tudo recomendando-nos como ministros de Deus; em muita perseverança, em aflições, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em trabalhos, em vigílias, em jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça à direita e à esquerda, por honra e por desonra, por má fama e por boa fama; como enganadores, porém verdadeiros; como desconhecidos, porém bem conhecidos; como quem morre, e eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; como entristecidos, mas sempre nos alegrando; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo. Ó coríntios, a nossa boca está aberta para vós, o nosso coração está aberto! Não estamos retirando o nosso afeto de vós, mas vós estais retirando o vosso afeto de nós. Ora, em recompensa disto {falo como a filhos}, abri também o vosso coração.”  2 Coríntios 6:4-13

A igreja de Cristo não necessita ser pastoreada por seres sobre-humanos  mas por pessoas sinceras que deixem claro a todos o quão dependentes são da graça.

“Ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte.”  2 Coríntios 12:9-10

Não crie expectativas que não possam ser atingidas. Diga como Paulo: “Que ninguém pense de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve” (2 Co.12:6).

Não tema desiludir àqueles que esperavam mais de você do que você tem a oferecer. Neste caso, a desilusão é uma bênção. É melhor desiludir-se do que viver uma eterna ilusão. Que as ovelhas que nos foram confiadas aprendam a ver-nos como referência, porém, não como padrão. O único que nos serve de padrão absoluto é o Pastor e Bispo de nossas almas, Jesus Cristo.

Não receie deixar de ser amado por dizer a verdade. Faça das palavras de Paulo um lema para o seu ministério:

“Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado.” 
2 Coríntios 12:15

E aí, vai correr o risco? Então faça o que os Galátas estavam dispostos a fazer por Paulo: arrancar seus próprios olhos para dar-lhe (Gl.4:15). Talvez você até perca admiradores e fãs, mas certamente ganhará filhos na fé, discípulos fiéis.

Que outros se enriqueçam ao custo de nossa pobreza. Que outros vejam, ainda que passem a desprezar-nos.
Amemos, cada vez mais. Mesmo que sejamos cada menos amados.

Fonte:http://www.hermesfernandes.com/2012/11/a-bela-cega-e-fera-ferida.html
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