5 de junho de 2013

Jesus e a marcha da família (ou seria da hipocrisia?)


Por Hermes C. Fernandes

Chegou, finalmente, o dia em que Jesus colocaria suas manguinhas de fora. Os discípulos já divulgaram por toda a Judeia que aquele dia seria um divisor de águas. O lugar marcado para o encontro seria em frente ao templo. De lá eles sairiam numa marcha pela família, pela liberdade expressão e pela vida até o pátio do palácio de Herodes.

Placas foram confeccionadas com dizeres do tipo "Abaixo as prostitutas!""Eunucos vão torrar no mármore do inferno!""Publicanos são uns traidores!""Os bacanais romanos tem que acabar!".

Pedro, um dos militantes mais engajados, dirige-se a Jesus, dizendo: - Hoje eles verão com quem estão lidando, mestre. Chega de subserviência. 

João corrobora: - Nossa manifestação será a maior desde da entrada triunfal de César em Roma.

Tiago apimenta: - Não podemos perder para as procissões saturnais!

Jesus parece assentir com o entusiasmo de seus discípulos. 

- Que tal se a gente aproveitar para fazer algumas reivindicações? - sugere Mateus.

- Precisamos de um quartel general aqui em Jerusalém! - declara Filipe.

- Vamos tomar o templo! Aqueles sacerdotes velhotes já estão ultrapassados - diz Judas.

- Calma, rapazes. Isso é só o começo. O próximo passo será tomar o poder - diz Jesus. - Afinal de contas, o Pai me enviou para ser cabeça, não cauda. Nasci para ser servido! 

- A propósito, Senhor, quando faremos uma marcha contra o divórcio? Já que defendemos a família, o Senhor não acha que o divórcio é tão nocivo quanto a prostituição e o homossexualismo?

- Sem dúvida! Será nossa próxima agenda.

- Só tem um probleminha, Senhor. Alguns dos seus mais achegados discípulos são divorciados.

- Então, vamos colocar um pano quente nisso.

- E que tal uma marcha contra os filhos rebeldes? Nunca mais vimos um sendo executado à pedrada na porta da cidade como ordena a Lei. A coisa está ficando muito relaxada, Senhor. Temos que tomar providência e exigir que a Lei seja aplicada.

- Não esqueçam da marcha contra o adultério e contra o troca-troca de esposas que tem acontecido com tanta frequência entre os sacerdotes. 

- Epa! Mas assim a gente acaba dando um tiro no pé! Tem tantos adúlteros entre nós, quanto entre os sacerdotes do templo. 

- É... é melhor a gente focar os eunucos e as prostitutas. Elas são as bolas da vez. Pelo menos, enquanto nenhum dos discípulos resolve sair do armário ou nenhuma das ex-prostitutas resolve ter uma recaída.

- Já que o assunto é família, por que não promovemos manifestações contra a pedofilia? As crianças são as maiores vítimas, e não são delas o reino de Deus?

- Mas assim, a gente vai colocar azeitona na empada dos outros. Já tem quem defenda as crianças. Foco, gente!

- E que tal uma marcha contra a corrupção, a injustiça e a miséria? - sugere um discípulo anônimo.

- Abafa! - dizem todos em uníssono. 

- É melhor a gente dar marcha-ré!

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