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"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

30 de dezembro de 2013

O ESCÂNDALO DOS PROJETOS DE FÉ: "Que tudo se realize no ano que vai nascer!" Seria esta a proposta do reino?



Por Hermes C. Fernandes

Basta chegar á reta final do ano, e logo, deparamo-nos com campanhas que estimulam os fiéis a preencherem algum cartão com os projetos de fé para o novo ano que se aproxima. No cartão encontramos imagens que atiçam nossa cobiça: uma linda casa de campo, uma cobertura em frente à praia, um carro (geralmente, uma Ferrari), um avião representando a viagem tão sonhada, etc. No fundo, a campanha visa apenas duas coisas: manter a frequência dos fiéis ao templo durante o período festivo e garantir uma boa arrecadação, uma vez que o projeto para o ano novo deve ser acompanhado de uma “semente” especial ou mesmo de uma "aliança" financeira em que o fiel se compromete a dar uma quantia vultuosa para a igreja.
Para instigar ainda mais os fiéis, pregadores vociferam: Sejam audaciosos! Não façam pedidos rasteiros. A Bíblia diz que pedimos e não recebemos porque pedimos mal. Então, em vez de pedir um fusca, peça uma BMW! Em vez de uma quitinete, peça uma cobertura luxuosa!

O culto de fim de ano geralmente termina com todos cantando: "Adeus ano velho, feliz ano novo! Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso. Saúda pra dar e vender."
Desta maneira, a igreja contemporânea parece estar em plena consonância com o espírito deste mundo, colocando-se numa posição antagônica à proposta subversiva do reino de Deus.
Repare, por exemplo, o que a passagem que tais pregadores usam realmente diz:
“Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. Infiéis, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Tiago 4:3-4
“Pedir mal” não é pedir pouco, mas pedir com o único objetivo de satisfazer a si mesmo. De acordo com Tiago, quem assim o faz, constitui-se inimigo de Deus.
É cada vez mais raro ouvir sermões que estimulem as pessoas a desejarem ser melhores, mais generosas, solidárias, compassivas. Em vez disso, elas devem pensar grande, estabelecer como alvo de sua existência algum sonho de consumo.
Quando fazem um inventário de sua vida de um ano para cá, seu interesse é saber se estão mais ricas ou mais pobres, se perderam ou ganharam mais, se conseguiram trocar o carro, sair do aluguel ou coisa parecida. Ninguém se pergunta se ao longo do último ano se tornou um ser humano melhor, um marido mais companheiro, um pai mais presente, um filho mais prestativo, etc.
Não estou dizendo que não podemos estabelecer objetivos materiais ou profissionais. Porém, estes devem ocupar um segundo plano em nossa vida. Como cidadãos do reino de Deus, nossas prioridades são outras.
Um pouco adiante em seu texto, Tiago diz:
“E agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. Tiago 4:13
Haveria alguma coisa errada com tais resoluções? Digamos que priorizemos o ser em detrimento do ter, isso nos impediria de estabelecer resoluções como estas para o novo ciclo que se inicia? Creio que não. O problema é que nesta equação falta um fator essencial. Vou deixar para falar dele um pouco adiante. Vamos, antes, destrinchá-la.
“Hoje ou amanhã” – Sempre temos a mania de marcar datas, de estabelecer prazos. Se não for hoje, será amanhã, ou quem sabe depois de amanhã. Mas será que já alcançamos a maturidade suficiente para atingir tais alvos sem que eles interfiram em nossa essência? Até que ponto somos tão vulneráveis que nosso sonho de consumo pode nos consumir? Há alvos que são legítimos, porém, não estamos preparados para atingi-los. Por isso, prefiro deixar em aberto. Pode ser que seja hoje, amanhã, ou, quem sabe, nunca. Isso não interferirá em quem eu sou.
“Iremos a tal cidade” – O Rio de Janeiro, bem como as grandes metrópoles brasileiras, estão tomados de moradores de rua que deixaram sua cidade natal acalantando o sonho de que lá seria o cenário que possibilitaria seu sucesso. Conheci muitos brasileiros que atravessaram a fronteira do México para chegar aos Estados Unidos, acreditando que lá todos os seus sonhos materiais se tornariam realidade. Conheci advogados que hoje ganham o seu pão fazendo faxinas. Não há nada de errado em querer mudar de um lugar para o outro em busca de melhores oportunidades. Porém, não se deve achar que se vai viver um conto de fadas simplesmente por mudar de endereço. Outros pensam que só se realizarão se fizerem seu curso superior numa determinada Universidade. Se não for ali, então, não serve. Enquanto tantas outras portas se abrem, eles insistem na única que se recusa a se abrir. E assim, a oportunidade acaba desperdiçada.
“Lá passaremos um ano” – Conheço tantos que foram pra ficar um ano em algum lugar, e não ficaram seis meses. Outros foram pra passar seis meses, e ficaram o resto da vida. Nossa agenda deve ter espaço para eventuais contingências. Nunca se sabe o rumo que a vida poderá tomar.
“Negociaremos” – Muita coisa pode ser negociada nesta vida, porém, há outras que são inegociáveis. A gente negocia o tempo trabalhando num expediente de oito horas diárias. A gente negocia nossas aptidões profissionais. Trocamos bens por serviços e vice-versa. Tudo isso é legítimo. Todavia, há quem, em nome do sucesso, se disponha a negociar princípios e valores que deveriam norteá-lo em toda a sua jornada neste mundo. Os fins jamais justificarão os meios. Nossa integridade não pode ser colocada num balcão. Como disse Jesus, “de que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma”(Mt.16:26)? 
“Ganharemos” – Ninguém entra num negócio para perder. Todos almejamos auferir algum lucro. Até aí, tudo bem. O problema começa quando nossa margem de lucro ultrapassa o limite do bom senso. Queremos ganhar a qualquer custo. Não importa que saia perdendo. É assim que as coisas funcionam no mundo. Uns ganham, enquanto outros perdem. No reino de Deus é diferente. Minha felicidade não pode custar a desgraça de quem quer que seja. Se eu ganho, todos devem ganhar. E caso alguém tenha que sofrer algum prejuízo por causa de alguma precipitação minha, que seja eu e não o meu semelhante (1 Co.6:7). Altruísmo? Não. Justiça.
O texto de Tiago prossegue:

“No entanto, não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece. Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo. Mas agora vos jactais das vossas presunções; toda jactância tal como esta é maligna. Tiago 4:14-16
Alguém ainda acredita em previsões de fim de ano? Por incrível que pareça, há quem lhes dê crédito. Se não, programas de TV não ocupariam tanto espaço entrevistando videntes, pais-de-santo, astrólogos e afins. Porém, o fato é que ninguém sabe o que sucederá amanhã. 2014 é uma incógnita. Quem vai ganhar a Copa? Não tenho a menor ideia. Posso até torcer pelo Brasil, mas não posso garantir nada. Só sei que, à luz deste texto, nossa vida não passa de um nevoeiro. Estamos, agora mesmo, desvanecendo.
Este final de semana trouxe fatos que surpreenderam o mundo dos esportes. Anderson Silva sofre fratura exposta em pleno ringue. Schumacher sofre traumatismo craniano grave enquanto esquiava, e agora luta para sobreviver. Fica a mensagem para este final de ano: NINGUÉM É INVENCÍVEL.

É neste ponto que devemos acrescentar à nossa equação existencial o mais importante fator: DEUS. Em vez de fazer votos fantasiosos para 2014 e os próximos anos, deveríamos dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Parece até brincadeira, mas este tipo de frase é terminantemente proibido em algumas igrejas. É como se passássemos um atestado de incredulidade. Ao contrário disso, dizer “se for da vontade de Deus” expressa total dependência d’Ele e o reconhecimento de Sua soberania. Isso é fé, não dúvida. E caso não seja, não serei eu a entrar numa queda de braços com Deus.
Outrossim, deve haver um ponto de equilíbrio entre soberania divina e responsabilidade humana. E é isso que encontramos na continuidade da passagem:

“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Tiago 4:17
Atribuir tudo o que nos acontece à soberania de Deus é uma maneira de driblar a consciência. Não bastasse usarmos o diabo como bode expiatório, somos atrevidos o suficiente para usarmos Deus como nosso álibi. “De que se queixa o homem vivente?”, pergunta o velho profeta, para responder logo em seguida: “queixa-se cada um dos seus pecados” (Lm. 3:39).
Podemos reunir os pecados humanos em duas classes distintas: pecados por comissão e pecados por omissão. Pecar por comissão é saber o mal que deve evitar e ainda assim, cometê-lo. Pecar por omissão é saber o bem que deve fazer e ainda assim desprezá-lo. No balanço da vida, os maiores arrependimentos são daquilo que poderíamos ter feito e não o fizemos. Ficamos como que presos no limbo do futuro do pretérito.
Bom seria se propuséssemos para o próximo ano e para o resto de nossa vida, errar menos e acertar mais. Se a oportunidade nos vier às mãos, nada devemos temer senão a inércia. Alguns, por medo de errar, simplesmente cruzam os braços e preferem se omitir. É melhor falhar tentando, do que falhar por se acovardar. Se sabemos o bem que devemos fazer, somos indesculpáveis. Sequer precisamos esperar o raiar do novo ano para fazê-lo. Se temos que pedir perdão, o que estamos esperando? Se precisamos perdoar, por que protelar? Lembre-se de que somos fugazes como uma neblina. Portanto, não temos todo o tempo do mundo. Como diz a canção do Lulu Santos: “Hoje o tempo voa, amor. Escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir que não há tempo que volte, amor. Vamos viver tudo o que há pra viver.” Então, que tal fazer aquela declaração de amor que você tem adiado por anos? Que aproveitar a passagem de ano para distribuir abraços apertados entre os amigos mais queridos? Que tal repartir seu pão com o que nada tem? Que tal levar mais a sério as demandas éticas da mensagem de Jesus?
Que venha o novo ano! Mas que, com ele, também venha um novo você, capaz de surpreender a todos os que julgavam lhe conhecer.  Um ser que seja mais parecido com Jesus, e que não se preocupe em ajustar-se aos padrões impostos pelo mundo. Que não se deixe consumir por nenhum sonho materialista. Que em vez de desejar se dar bem, queira, sobretudo, fazer o bem e chegar ao fim do próximo ano sem ter tantos motivos de se arrepender. 
Feliz Tudo Novo!
 
Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2013/12/projeto-de-fe-que-tudo-se-realize-no.html

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