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"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

17 de novembro de 2013

Sou pastor...



Sou pastor.

Realizo atos pastorais. Batizo, caso, oro pelos enfermos, visito pessoas, compartilho a Bíblia, celebro a eucaristia, faço velórios e ofícios fúnebres.

Sou um ser ser socialmente “irrelevante” que participo dos momentos mais relevantes das pessoas. Valho pouco para o mercado e para as macro estruturas, mas tenho um valor insubstituível para o cotidiano das gentes.

Gosto muito do que faço, especialmente porque não me acostumei a nada disso. Apesar de fazer geralmente a mesma coisa, cada ato tem vida e importância próprias, que têm o poder de me assustar e alumbrar.

Cada casamento que celebro, me lembra a mística cristã, onde um mais um é um. Um casamento é o primeiro passo na direção da formação de uma família e a família é a expressão mais característica da trindade, pessoas coexistindo de forma tão hamônica a ponto de parecerem um.

Maravilho-me ao batizar alguém. A primeira pessoa que batizei foi um jovem chamado Téo. Téo, Deus. O Deus que me batizou, convidando-me a batizá-lo. Ver alguém professando sua fé no Mestre, descendo às aguás e ressurgindo, como símbolo de morte e ressurreição, faz-me continuar crendo na possibilidade de qualquer pessoa, pela graça do Pai, ser transformada pela ação do Espírito.

Dividir o pão da ceia, servir o cálice, celebrar morte e vida, relembrar o sacrifício com alegria contida pela reverência diante de algo tão grandioso, apesar de singelo, renova minha fé naquele que se deu por mim sendo pão amassado e vinho derramado.

Visitar pessoas, orar com enfermos, compartilhar as Escrituras são o alimento de cada dia. As visitas presenteiam-me com as histórias que estão por detrás dos rostos. A oração pelo que sofre gera a compaixão que me aproxima ao ponto de dividir a dor. O compartilhar, alimenta ao que ouve e ao que fala enquanto a mesa está posta das Sagradas Letras.

“Encomendar” alguém que parte nos põe diante do mistério da morte, algo que nos assusta, nos violenta, tira de nós sem aviso prévio ou licensa àquele(a) que amamos. Sem a consciência da morte, não se dá o valor devido à vida. Sem a certeza de que ela, morte, não é detentora da última palavra, não se vive a esperança do porvir. Poder lembrar as pessoas disso, enquanto choramos juntos, é um privilégio sem igual em meio à dor.

É, sou pastor. A matéria prima de meu ofício é o solo sagrado dos corações das pessoas. Piso descalço, com extremo cuidado. Minhas ferramentas de trabalho são as Escrituras, as orações, os abraços, os ouvidos e a boca de vez em quando.

Sim, sou pastor. Um árduo ofício, tão árduo, quanto belo. Já pensei em desistir meia dúzia de vezes, mas não consegui. No começo, achei que tinha um chamado. Estava enganado. Não tenho um chamado, ele é que me tem.

Sou pastor.

Fabricio Cunha
vi aqui, no blog pessoal do autor do texto



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