11 de fevereiro de 2014

Fazendo justiça com as próprias mãos






Por Hermes C. Fernandes


Eu tinha meus nove anos, e lembro-me perfeitamente da sensação de pavor que sentia cada vez que caminhava de minha casa em Quintino para o curso de datilografia em Cascadura, subúrbio carioca, e me deparava com as manchetes dos jornais com reportagens sobre o Mão Branca. Era raro um dia em que não houvesse notícia de execuções de bandidos amarrados em postes e com um bilhete deixado por alguém que se fazia chamar de Mão Branca. Para uns, herói justiceiro. Para outros, bandido cruel. Tempos depois, descobriu-se que aquele personagem jamais existiu. Membros da própria polícia eram os responsáveis pelos assassinatos fartamente noticiados e que visavam aterrorizar e coibir o avanço da criminalidade durante o tempo da ditadura. Sem que os meliantes tivessem a chance de serem julgados e de apresentarem ampla defesa, eram sumariamente executados. Quantos inocentes não foram vítimas desses justiceiros?


Décadas depois, a cidade do Rio de Janeiro é cenário de mais um ato bárbaro capaz de nos remeter a um tempo do qual preferiríamos nos esquecer. Um adolescente de dezesseis anos, negro e pobre, é amarrado nu a um poste e linchado por um grupo de rapazes. Parte de uma de suas orelhas é decepada. Apesar de ter passagem pela polícia por roubo e violência, aquele jovem merecia ser conduzido às autoridades, julgado e punido com o rigor da lei.


Tão logo se noticiou o fato, as redes sociais ficaram entupidas de comentários, alguns a favor, outros contra. Antes que a poeira se assentasse, a jornalista Rachel Sheherazade, âncora do SBT, resolve fazer um comentário, no mínimo, infeliz sobre o episódio. Suas críticas ao Estado omisso, à polícia desmoralizada e à Justiça falha são justas. Mas chamar aquele linchamento de "legítima defesa coletiva" é um insulto ao bom senso. Ao término de seu comentário, Sheherazade deixa um recado irônico aos defensores dos Direitos Humanos "que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste": "faça um favor ao Brasil, adote um bandido".


A mesma jornalista que recentemente saiu em defesa das estripulias de Justin Bieber, alegando que não passariam de "coisa de adolescente", descarrega sobre um menino brasileiro preto e pobre todo o seu preconceito. O astro canadense, branco e adolescente, pode fazer o que quiser, inclusive depredar patrimônio público ou privado do país alheio, mas anônimo brasileiro, preto e pobre, que tinha a ficha "mais suja do que pau de galinheiro", tem que ser linchado pra deixar de ser mané.


Muitos cristãos se posicionaram favoráveis aos comentários da jornalista pelo simples fato de ela se professar evangélica. Foram poucas as manifestações contrárias vindas daqueles que deveriam ser os primeiros a defender os direitos humanos. Em contrapartida, deparei-me com muitos ateus e pessoas ligadas a outros credos, posicionando-se inegociavelmente em defesa da dignidade humana. Alguém ainda duvida que alguma coisa está errada?


Causou-me estranheza perceber que os mesmos que defendem a preservação da propriedade, não saiam igualmente em defesa dos direitos humanos. Se depredam edifícios públicos ou privados, são vândalos inconsequentes. Mas, se amarram um adolescente e o espancam, são justiceiros. Será que propriedades valem mais que a vida?


Será que nosso ardor ideológico nos cegou quanto aos valores do evangelho?


Há quem busque amparo bíblico para tal posicionamento. Afinal, foi Jesus quem disse que "bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos" (Mt.5:6). Por favor, não confunda fome e sede de justiça com fome de vingança e sede de sangue. Repare que logo em seguida, Jesus também diz que"bem-aventurados são os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (v.7). Se subtrairmos a misericórdia, a justiça se transformará em vingança. Os que têm fome e sede justiça são os mesmos que agem com misericórdia, demonstrando assim, serem pacificadores, com mãos limpas e coração puro.


Davi já havia recebido do Senhor o projeto da construção do templo. O recurso já havia sido levantado. Trabalhadores tinham sido contratados para a obra. Quando estava prestes a dar o pontapé inicial, o Senhor lhe disse: "Tu derramaste sangue em abundância, e fizeste grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome” (1 Cr.22:7-8). Coube a seu filho Salomão edificar o templo. Mesmo reprovado para aquela obra por haver sangue em suas mãos, Davi se preocupou com os requisitos necessários para que alguém pudesse entrar naquele santuário para adorar ao seu Deus. Ele indaga: “Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo? O que tem mãos limpas e coração puro” (Sl.24:3-4). Mãos limpas são as que não derramaram sangue. Coração puro é o que não abriga ódio, nem desejo de vingança. No Salmo 15:1-3, ele vai ainda mais longe, e indaga: “Quem, Senhor, habitará na tua tenda? quem morará no teu santo monte? Aquele que anda irrepreensivelmente e pratica a justiça, e do coração fala a verdade; que não difama com a sua língua, nem faz o mal ao seu próximo, nem contra ele aceita nenhuma afronta.” Repare no detalhe: para construir o templo, tinha que ter mãos limpas. Para entrar no santuário, tinha que ter, além de mãos limpas, coração puro. Mas, para morar no santuário, tinha que, entre outras coisas, praticar a justiça e, além de não fazer mal ao próximo, não aceitar contra ele nenhuma afronta. Portanto, não basta ter mãos limpas no sentido de jamais tê-las usado para fazer o mal, também não se pode ser cúmplice, apoiando o mal que se faz. Aceitar uma afronta a qualquer ser humano, por pior que seja, é ser cúmplice da injustiça praticada. Quando assim agimos, aos olhos de Deus há sangue em nossas mãos. Por isso, Paulo foi tão enfático: "Não sejais cúmplices das obras infrutuosas das trevas, antes, condenai-as" (Ef.5:11). Ou alguém acha que vingança é obra da luz? Parafraseando Martin Luther King, Jr., "a injustiça cometida contra qualquer ser humano é uma ameaça à justiça a toda humanidade."


O que esperar de uma geração de cristãos cujas mãos estão cheias de sangue e o coração tomado de ódio? Se Davi não pôde construir o templo, talvez isso nos impeça de edificar o reino de Deus entre os homens.


Foi no pátio daquele mesmo templo que poderia ter sido construído por Davi, que Jesus se viu numa sinuca de bico provocada pelos religiosos de sua época. Trouxeram-lhe uma mulher flagrada em adultério (Jo.8:2-7). De acordo com a lei de Moisés, ela deveria ser sumariamente executada, sem dó nem piedade. "E aí, Jesus, como devemos proceder?" O objetivo deles era pegar Jesus numa contradição qualquer. Se abonasse a sentença que eles já haviam prescrito, Jesus seria acusado de insurgir-se contra o direito romano que exigia que ela fosse julgada por autoridades credenciadas para tal. Se fosse contrário à execução, eles o acusariam de insurgir-se contra a lei de Moisés. Aparentemente encurralado, Jesus pronuncia a célebre sentença: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra". Um por um foi saindo à francesa, evidenciando assim que todos tinham igualmente culpa no cartório celestial. Não fosse a intervenção de Jesus, naquele dia o assoalho do pátio do templo seria manchado de sangue.


Para tentar conciliar a posição subversiva de Jesus com a exigência da lei de Moisés, alguns alegam que Jesus só não apoiou a execução daquela mulher pelo fato de seu amante também não ter sido conduzido para ser executado. Não seria de bom tom permitir que somente ela pagasse pelo pecado. Imagine, então, Jesus dizendo para os detratores daquela mulher: - Ok. Vocês estão cobertos de razão. Se a lei ordena, então, mãos à obra. Executem-na. Porém, antes, tratem de trazer o sujeito que foi pego em flagrante com ela. E mais: levem-nos às autoridades romanas. Somente elas estão autorizadas por Deus ao uso da força para coibir o mal. Se o objetivo de Jesus era apenas sair daquela saia justa, penso que tais argumentos seriam suficientes. Ele ficaria bem os judeus e com os romanos.


Em vez disso, ele apenas disse: Quem não tem pecados, fique à vontade... Tão simples, não? Por que complicar para justificar uma ideologia? Prefiro crer que Jesus quis dizer exatamente o que disse, e não que tenha lançado mão de um recurso retórico para sair pela tangente. Por favor, não roubem a poesia desta passagem.


Apesar de tudo o que disse até agora, sou a favor de se fazer justiça com as próprias mãos! Todavia, entendo que, de acordo com o espírito do evangelho, fazer justiça com as próprias mãos é repartir o pão com o necessitado.


Precisamos transformar pedras em pães! Pedras se atiram. Pães se repartem. O mesmo Jesus que se recusou a transformar pedras em pães conforme sugerido pelo diabo, multiplicou os pães e os peixes para alimentar uma multidão de famintos. Não haveria nada de errado em transformar pedras em pães, exceto pelo fato de ser em benefício próprio. Mas quando se trata de agir em favor do bem comum, todo esforço é bem-vindo. Foi o próprio Jesus quem disse: "Qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? (...) Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?" (Mt.7:9-11).


Os famintos deste mundo clamam por pão e o que é que lhes damos? Pedras! Clamam por escolas, e lhes damos cadeias. Clamam por oportunidade, e lhes damos esmolas.


Em vez de defender à vida, preferimos sair em defesa do status quo. O que interessa é garantir a manutenção do nosso patrimônio. Eles, se quiserem, que trabalhem para conquistar o seu. Estão na pobreza porque querem. São vagabundos! Párias da sociedade! Aos que pensam assim, recomendo a advertência de um Deus extremamente frustrado com o Seu povo, que "esperou que exercessem juízo, mas eis aqui derramamento de sangue; justiça, e eis aqui clamor. Ai dos que ajuntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sós no meio da terra! (...) Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por luz, e a luz por trevas, e o amargo por doce, e o doce por amargo!" (Is.5:7-8,20).


A justiça pela qual devemos ter fome e sede não é a retributiva, a que pune o criminoso, mas a distributiva, a que espalha recursos de maneira que não falte a uns o que sobeja a outros. Como disse Paulo, "para que não haja alívio para outros e aperto para vós, mas para que haja igualdade, suprindo, neste tempo presente, na vossa abundância a falta dos outros, para que também a abundância deles venha a suprir a vossa falta, e assim haja igualdade; como está escrito: Ao que muito colheu, não sobrou; e ao que pouco colheu, não faltou (...) E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra; conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre" (2 Co.8:13-15; 9:8-9).


Esta é a justiça do reino de Deus, que, se diligentemente buscarmos, além de saciados, todas as demais coisas ser-nos-ão acrescentadas. Não há como buscar o reino de Deus, sem levar a sério a sua justiça (Mt.6:33). Foi esta justiça que saciou os cristãos primitivos. De sorte que "era um o coração e alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns (...) Pois não havia entre eles necessitado algum"(At.4:32,34).


Alguns setores da igreja moderna dariam tudo para que passagens como esta fossem removidas do cânon sagrado. Elas cheiram a comunismo! Depõem contra o tipo de cristianismo furreca que temos vivido em nossos dias.


O culto espalhafatoso que costumeiramente oferecemos a Deus será desprezado. Nossos cânticos e orações se tornarão abomináveis. Ele não será cúmplice de nossas maldades. Se as mesmas mãos que se estendem a Ele em louvor não forem as mesmas que estendem ao próximo em amor, nosso cristianismo não passará de balela.
“Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva.” Isaías1:15-17
A propósito, adivinha quem resolveu levar a sério a sugestão de Rachel Sheherazade? Ninguém menos que Jesus, a quem ela afirma convictamente servir. Dois mil anos antes de sua sarcástica sugestão para que levássemos um bandido para casa, Jesus resolveu adotar o meliante que morria ao seu lado na cruz, garantindo que ainda naquele dia estaria com Ele no paraíso.


Apesar de não se preocupar com o destino que os soldados romanos davam ao Seu único bem, Sua túnica sem costura, Jesus demonstrou preocupar-se com o destino eterno daquela vida preciosa. Não o acusou. Não disse algo do tipo "bem feito! Vocês por merecer!". Não lhe pregou um sermão evangelístico. Mas demonstrou-lhe um amor que ele jamais conhecera durante seus dias de criminalidade.


O amor é o canal através do qual jorra a verdadeira justiça. Então... vamos fazer justiça com as próprias mãos?
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