21 de julho de 2013

Minha divina revelação no inferno.

Por Hermes C. Fernandes

Ontem fui ao inferno. Não foi uma visão, nem uma experiência extracorpórea, do tipo “arrebatamento”, mas algo real, concreto. Foi difícil remover o odor que ficou entranhado em meu corpo. O que vi no inferno? Não havia diabos com tridentes, nem caldeirões. Mas vi muitos anjos de pele escura que insistiam em sorrir para mim, apesar de não encontrar qualquer razão para sorrir.

Pasmem! Encontrei o céu bem ali... no inferno!

A palavra traduzida por “inferno” nos evangelhos é geena, que também poderia ser traduzida como “Lixão”. O Geena ficava do lado de fora dos portões da cidade de Jerusalém, e nele eram lançados todos os detritos, aquilo que jamais poderia ser reciclado e que, portanto, só serviria para alimentar as chamas que ali ardiam ininterruptamente.


Nosso Geena fica num bairro de Duque de Caxias chamado Jardim Gramacho. Mesmo tendo sido desativado pelo governo recentemente, o lixo de toda a região metropolitana do Rio continua sendo lançado lá.

Centenas de pessoas vivem ali, disputando com os urubus e as ratazanas as sobras de uma sociedade consumista ao extremo.

Devo confessar que a pobreza não é novidade para mim. Numa cidade como o Rio, acostumamo-nos com o contraste resultante do convívio entre riqueza e pobreza. Todavia, nunca havia me deparado com tamanha miséria. As condições de vida ali são desumanas. Casas feitas de papelão, pedaços de telha e madeira podre.

Não há água encanada, tampouco saneamento básico. Vi quando uma criança pisou em cima de fezes, e sequer se importou. Apenas esfregou seu calcanhar no solo enlameado para removê-la.

O cheiro era insuportável. Havia momentos em que sentia ânsia de vômito. Como seres humanos poderiam viver em tais condições? Lágrimas vinham aos olhos...


E aqueles sorrisos? Como explicá-los? Como entendê-los? Eram um insulto à minha arrogância burguesa.

Quando entrávamos em alguma casa (se é que posso chamá-las assim), éramos recebidos como príncipes. As crianças nos abraçavam o tempo todo, revelando sua carência de amor.

Se num dia ensolarado como ontem foi tão difícil caminhar pelas ruas enlameadas, imagina quando chove.

Na ótica de Jesus, o lixão era lugar para vermes, não seres humanos, feitos à imagem e semelhança de Jesus. Então, o que eles estariam fazendo ali? Quem os condenara a uma existência tão indigna? Que pecados teriam cometido? O pecado de existir numa sociedade corrompida pela injustiça. Eles são os efeitos colaterais da nossa estúpida ganância. Preferimos varrê-los para debaixo deste enorme tapete de lixo. Desde que estejam fora de nossa vista, tudo bem. Vamos ignorá-los como sempre fizemos.

Foi ali naquele inferno dantesco que tive uma das mais incríveis experiências espirituais da minha vida. Não digo por causa das línguas que falamos enquanto orávamos com os olhos encharcados de lágrimas. Aquela gente abandonada foi o instrumento usado por Deus para conduzir-nos, a mim, e aos irmãos aos quais acompanhava, a uma espécie de êxtase real. Fomos arrebatados de nossa espiritualidade gnóstica e devolvidos ao chão da existência. Levamos um baita choque de realidade. Nosso coração foi batizado no amor. Certamente que recebemos ali muito mais do que fomos levar. Encontramos Deus no inferno!


Jamais me esquecerei das cenas protagonizadas pelo casal Stéphannie e Victor, dois jovens cristãos de classe média que saem de suas casas duas vezes por semana para estender as mãos àquele povo sofrido. Foi difícil conter as lágrimas vendo Stéphannie, que é filha do jogador Bebeto, fazendo curativos em mulheres enfermas. Uma delas, carinhosamente chamada de Preta, perdeu um dos dedos do pé por causa da diabetes. No final do atendimento, foi ela quem nos abençoou com sua singela oração.

O bispo Bill Mikler dos Estados Unidos parecia um pinto do lixo, abraçando e deixando-se abraçar por todos, sem o menor constrangimento.

O que seria responsável por tanta miséria? Descaso das autoridades? Certamente que este é um dos fatores, porém, não é o único. A propósito, construíram uma enorme usina de extração de metano bem ao lado. Todo aquele lixo vai financiar luxo de muitos. Se ao menos parte do lucro fosse usado para melhorar as condições de vida daquela gente...



O fato é que a miséria que encontrei no Lixão depõe diante de Deus contra a nossa religiosidade apática e nossa alienação crônica. Para reverter este quadro, precisamos de um choque de amor que nos devolva à realidade e resulte em ações efetivas que manifestem a justiça do reino. Deixemos, portanto, o conforto de nossos templos e saiamos ao encontro de Deus que insiste em esconder-se nos excluídos e desprezados.

O desejo de minha alma é que se cumpra em cada um deles a escritura que diz:
“Ele levanta do pó o necessitado e ergue do lixo o pobre, para fazê-los sentar-se com príncipes, com os príncipes do seu povo.” Salmos 113:7-8
Todavia, para que esta palavra se cumpra, "os príncipes do seu povo" precisam deixar sua zona de conforto, de seus castelos eclesiásticos, para ir ao encontro daqueles a quem Deus estabeleceu como prioridade do Seu reino.

Taí uma boa dica para o papa Francisco... #Vem pro lixão, vem! Afinal de contas, o amor transforma infernos em paraísos, e o terrível odor do lixo no bom perfume de Cristo.

Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2013/07/minha-divina-revelacao-no-inferno.html



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