13 de julho de 2013

O que deseja que eu faça por ti?



No inicio, pareceu-me a pergunta mais absurda, mas logo me dei conta de que foi a pergunta que mudou a minha vida.
Meu nome é Bartolomeu, o filho de Timeu. Mas Timeu e minha mãe me engendraram cego. Nunca tinha visto a luz, não sabia o que era uma cor, nunca tinha conhecido um rosto, não sabia o que era um sorriso. Meu mundo era um mundo pobre, não só porque não tinha a vista, como também outras riquezas estavam fora do meu alcance: uma família que logo se desfez de mim porque minha própria cegueira a acusava, uma cidade que me expulsava porque minha presença era a marca da debilidade. Assim era minha vida, à margem do caminho, na antiga Jericó de Rajab, a cidade dos muros tombados, a cidade reconstruida a preço de sangue, bendita e maldita Jericó. Maldita pra mim, desde meu berço, ainda que nem berço tenha me dado.
 Pobreza é a falta de afeto, a falta de cuidado, a falta de misericórdia, e dessa pobreza me queixa, mais do que a falta de vista. Fizeram-me pobre e mendigo, reduziram-me a ser uma pedra na margem do caminho, o que sobra, o que não é. O testemunho cego da ambição e do preconceito, o obrigado parasita da caridade alheia, o molesto importuno no qual descarregar irritações e zombarias. De vez em quando, a esmola injuriosa com a qual uma pessoa ou outra se julgava generosa e cumpridora da lei me dava para comer pão das lágrimas, lágrimas dos olhos negados.
Pensar que o cego era eu, mas eram eles que não me viam, não viam o ser humano que eu sou, não sabiam de meus sonhos sem imagens, dos meus desejos sem respostas, dos sofrimentos do desamor. E eu, ainda que cego, via: via a soberba dos medíocres, o legalismo que expulsa, a dolorosa enfermidade dos que se creem sãos porque veem, mas não enxergam seu próprio pecado, que é a pior enfermidade. Cego e pobre, mas não tão cego e pobre como alguns videntes ricos. A vida me lançou no lugar da pobreza, mas o que me faltou em bens sobrava-me em experiências, nem sempre as melhores
Cego não significa surdo. E escutava os transeuntes de mil caravanas que passavam ao largo. Enriquecia meu pobre mundo com sons e as vozes, com os contos, à medida que chegavam até mim, com os comentários de passagem. E entre essas histórias, começou a ressoar uma vez ou outra um nome, um tal Jesus.
Galileus a caminho do templo nomeavam-no vez ou outra. Aparecia em muitas historias: que por ordem sua aconteceu maravilhosa pesca no lago, que alimentou uma multidão com apenas uns poucos pães, que curou um homem que tinha a mão paralitica, uma mulher encurvada, a outra com fluxo de sangue. Outros diziam que um paralitico tinha caminhado em Jerusalém, próximo da piscina de Siloé, que os demônios rugiam diante de sua voz e presença. Inclusive que uma menina tinha sido ressuscitada. E também que havia restituído a vista aos cegos.  Eu escutava também essas historias e como queria acreditar nelas!
Havia também outras vozes: as dos fariseus que o acusavam de não respeitar a Lei, de não guardar as formas nem o sábado, de estar rodeados de pobres e rústicos, de publicanos e prostitutas, quer dizer, de andar com pessoas como eu, feridas pela impureza.
Encolerizavam-se  com sua maneira de ensinar, com a mensagem ambígua de suas parábolas, sentiam-se ofendidos pela sua maneira de contestá-los, por anunciar um reino de pobres e crianças, do qual eles seriam excluídos.
Ocasionalmente, quando alguém com um pouco mais de simpatia se detinha perto de mim, aproveitava para perguntar. Assim me inteirei de que, conforme acreditava, era descendente do rei Davi, tinha sido batizada por João e, nesse momento, a voz de Deus tinha se manifestado. Os rumores anunciavam que era um profeta dos antigos, no estilo Jeremias, ou o mesmíssimo Elias que voltou à terra. Certa vez passou um seguidor de João, o profeta que batizava e que tinha sido assassinado por Herodes. Este, sim, tratou-me bem; inclusive deu-me de presente a capa que tinha, porque dizia ser esse o ensinamento de João, e que Jesus era aquele que João tinha anunciado. Disse-me que, quando estava na prisão, João o tinha enviado junto com outros seguidores a se encontrar com Jesus e perguntar-lhe se ele era o Messias ou tinham que esperar por outro, e que Jesus não lhes tinha respondido diretamente, mas – e o homem se lembrava bem – que “ os cegos recuperam a vista, os coxos andavam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos, ressuscitam e aos pobres é anunciado o evangelho” .   Essas coisas, eu mesmo ouvia nos comentários dos viajantes e eram o meu próprio anseio, a mais profunda das minhas reclamações, o mais sonhado dos meus sonhos. “ Ah se isso fosse verdade!”, dizia para mim. E se fosse verdade, cheguei a conclusão que seria o Messias, e se for o Messias, cedo ou tarde ele virá a Jerusalém e deverá passar por Jericó, e então terei oportunidade de pedir-lhe, como os outros, que recupere a minha vista.
Efetivamente, o dia chegou. Escutei os rumores. Preparei a minha alma. Era a oportunidade de minha vida e não podia perdê-la. Assim, quando soube que estava próximo, comecei a chamá-lo, a chamá-lo a partir daquilo que queria crer: “Jesus, filho de Davi!”. Não faltou que quisesse que eu me calasse. No entanto, como eu iria calar?! Teria que fazer minha voz ressoar mais alto do que as outras vozes. Se havia algo certo em Jesus, naquilo que tinha ouvido dele, teria que ouvir-me, tinha que ouvir o cego, o pobre, o rejeitado. Esse era o Jesus que minha cega imaginação delineava.
E me ouviu e fez com me aproximasse. Saltei com uma mola. Ai até voou a capa que o discípulo de João tinha me dado de presente. Guiado pelas vozes, corri ao seu encontro, no ultimo ato de minha cegueira. E então esta pergunta insólita: “O que queres que eu faça por ti?”. Por um momento duvidei: “Por acaso, se é o Messias, não deveria saber qual é a minha necessidade? Por acaso não está evidente que sou cego e o que mais anseio é ver? Por que precisa perguntar o que é obvio?”. Contudo, não duvidei na resposta: “Mestre, que eu veja”, eu lhe disse, acentuando o obvio. Vocês já conhecem o resultado, porque agora vejo.
No entanto, voltei mais de uma vez à insólita pergunta. E me dei conta de que nela estava contido todo o segredo da liberdade humana. Jesus não pensou por mim, fez-me expressar meu próprio desejo, explicitar meu anseio. Levou-me a fazer aquilo que sempre quis fazer. Quando os outros mandaram que eu me calasse, ele me fez falar. Quando os outros me mantinham à margem, ele me colocou no centro, fazendo com que expressasse meu próprio sentir.
Quando os outros me depreciaram, ele me mostrou seu apreço, querendo me escutar. Quando para os outros eu era apenas uma coisa a mais à beira do caminho, para ele fui o ser humano que pode manifestar o que deseja a partir de sua própria dignidade. Não pensou por mim, não falou por mim, não decidiu por mim: deu lugar ao meu próprio desejo, minha própria voz, minha própria decisão: o cego da margem  do caminho pensa, fala, decide o que quer diante do filho de Davi. Eu fui a autoridade, ele se colocou ao meu serviço: “Que queres que eu fala por ti?”.
E realizou o meu pedido, mas não fez sem mim, o fez com a minha fé. Salvou-me. Salvou-me da indignidade, do opróbrio, da zombaria, da pobreza que desqualifica, do amor que exclui. Essa pergunta banal foi a mais profunda de todas, a que mostrou que ele verdadeiramente que ele é o Messias. Porque, antes de restituir-me a vista, já tinha me devolvido a palavra, tinha me devolvido a dignidade, tinha me tornado humano de novo.

Néstor Míguez 

Um Jesus Popular Para Uma Cristologia Narrativa. Editora Paulus 1ª Edição
Paginas 107 a 116.
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