15 de outubro de 2012

Tão burro quanto a jumenta de Jesus



Por Magno Paganeli
Distorcer o sentido dos textos bíblicos não é so tarefa de gente mal intencionada, mas também desinformada. Com a finalidade de fazer os ouvintes crerem que a Bíblia é um “guia rápido para enriquecimento”, certos pregadores fazem verdadeira “reengenharia hermenêutica”. A hermenêutica orienta a aplicação do conteúdo do texto sagrado de modo adequado e honesto – prática que pouco interessa a quem está disposto a corromper o conteúdo das Escrituras.

Mas vamos a um fato. Vez ou outra alguém cita a passagem de Mateus 21, aquela clássica passagem que narra a entrada de Jesus em Jerusalém durante a festa. Como sabemos, Jesus faz a chamada “entrada triunfal” montado numa jumenta. A ocorrência havia sido profetizada por Isaias 62.11, tamanha a importância que da cena.


Os mal intencionados, para fazer de Jesus o “guru da prosperidade” afirmam ter ele entrado na cidade montado numa jumenta porque era o melhor veículo que dispunha. E acrescentam: “Se fosse nos dias de hoje, Jesus usaria uma BMW". Já ouviu essa besteira ou algo assim? O seu pastor já disse isso?


Pois bem, vamos revelar a “burrice” de quem pensa assim.


Em primeiro lugar, o espírito do Evangelho não é esse, digo, que o homem seja seduzido pelas riquezas. A Bíblia não estimula a isso. Nada mais longe da verdade. Pensar que as Escrituras orientam e até mesmo prometem/garantem riquezas e prosperidade a todos indistintamente equivale a dizer que os grandes nomes, os gigantes da fé do passado, foram muito desinformados. Paulo, Pedro, Agostinho, Wesley, Calvino, Lutero, Whitefield, Müller e dezenas de outros nomes nada souberam sobre essa proposta capitalista e mesquinha de fazer da Bíblia a chave para o aumento da renda e das posses. Quem pensa assim nunca leu um só parágrafo sobre a história da Igreja.


Em segundo lugar, é mais que burrice pensar isso a respeito da Bíblia, pois demonstra total desconhecimento sobre o seu próprio conteúdo. Eu explico: mil anos antes de Jesus, o rei Salomão já mantinha cidades-armazéns (isso, no plural: cidades) apenas para guardar os cavalos importados que trazia da Arábia e os carros de Guerra (1Reis 9.20). “Salomão possuía quatro mil cocheiras para cavalos de carros de guerra, e doze mil cavalos” (1Re 4.26). Essa quantidade absurda, Salomão usava para aparelhar o exército que herdou de seu pai Davi.


Se Salomão, que embora tenha sido um dos homens mais ricos da história, foi considerado por Jesus menor do que este, por que Jesus não usou algo melhor que uma jumenta? Se mil anos antes de Jesus, Salomão tinha recursos mais nobres, era de esperar que o próprio Jesus, o Messias esperado, fosse mais “esparto” que o antigo rei e “esnobasse” os incrédulos infiéis desfilando ao menos uma carruagem importada! Não foi isso o que aconteceu.


E por último, ao entrar em Jerusalém montado num jumento, Jesus desfez e frustrou propositadamente as expectativas erradas sobre a sua pessoa e missão. Os judeus, e alguns discípulos de Jesus, aguardavam um líder com motivações militares, um libertador forte, algo como o próprio Davi havia sido. Não foi o que aconteceu. O Reino de Jesus era de outro mundo e outra natureza e ele não alimentou expectativas erradas a esse respeito. Assim, em vez de montar um caríssimo cavalo árabe, coisa para “Salomões”, ele montou uma jumenta, mansa como ele mesmo. E com isso, ficou clara a natureza de sua missão.


Resta aos pregadores inconvenientes, que não lêem a Bíblia e ignoram o seu conteúdo, fazerem afirmações enganosas e levarem ouvintes interesseiros a crerem em discursos triunfalistas, de auto-ajuda, mas bem distante da verdade de Deus. 
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