19 de dezembro de 2011

Festival Promessas: Como ovelhas levadas ao matadouro


Por Hermes C. Fernandes 
Jamais poderíamos imaginar que um dia a Rede Globo promoveria um festival de música cristã. É claro que suas motivações são meramente comerciais, e não poderia ser diferente. Pensar o contrário é assinar um atestado de ingenuidade, pra não dizer outra coisa. Porém, não acho que deveríamos apedrejá-la por isso. A abertura concedida demonstra que a Vênus Platinada reconhece o potencial comercial desse promissor filão. 

Enquanto a Globo celebra o sucesso da audiência, os evangélicos celebram o fato de terem conquistado a terra prometida. Chegamos ao topo! Agora seremos respeitados. Acabaram as perseguições. Essas seriam algumas das conclusões a que chegaram os adeptos da religião que mais cresce no Brasil.

Tenho a impressão de já ter visto este filme antes por pelo menos duas vezes. Na primeira, quando Herodes pede que os Magos lhe informem sobre o paradeiro do recém-nascido Jesus, tão logo o encontrassem. Suas intenções, porém, não era adorá-lo, como alegava, mas eliminá-lo. O rei fajuto da Judéia sentia-se ameaçado pelo cumprimento das profecias. A concorrência tinha quer ser calada. Ninguém podia ter mais IBOPE que ele. Que bom que os Magos, avisados pelo anjo, não voltaram mesmo caminho. O outro episódio que nos remete à inusitada aproximação entre a mídia secular e os evangélicos é o da pseudo-conversão de Constatino, imperador romano. Cessaram-se as perseguições. O cristianismo tornou-se na religião oficial do império. Constantino parece ter aderido à máxima: se não pode com eles, junte-se a eles. O preço pago pela pax romana foi altíssimo. O cristianismo tornou-se numa colcha de retalhos, assimilando todo tipo de religiosidade praticado pelos povos dominados por Roma. 

Não julgo a Rede Globo. Acho até louvável a iniciativa. Apesar disso, não nutro uma visão romântica e ingênua de sua aproximação dos evangélicos.  

Penso que seria preferível que cantores e artistas cristãos se infiltrassem na mídia secular como cantores e artistas seculares, porém, comprometidos com os princípios e valores do Reino. 

Veja, por exemplo, o caso do menino prodígio Jotta A. Mesmo assediado por gravadoras seculares, preferiu assinar contrato com a gravadora de Silas Malafaia. Com a popularidade alcançada por ele junto ao público secular, seria melhor que ele se engajasse numa carreira secular, e aproveitasse a fama para divulgar através de suas músicas os valores da fé cristã. Como tomou outro rumo, vai ficar estigmatizado como cantor gospel, com um público reduzido ao gueto religioso. Sinceramente, acho um desperdício. Alguém argumentou comigo dizendo que seria duvidoso que um menino nessa idade começasse uma carreira secular sem desviar-se da fé. Meu contra-argumento é que seria mais fácil que ele se desiludisse quando adentrasse o meio gospel, e verificasse a hipocrisia com que vivem muitos dos seus astros. 

Cantores que fazem de sua carreira um ministério, deveriam dedicar-se exclusivamente ao louvor e à evangelização. O problema é que iniciativas como o Festival Promessas e programas como o do Raul Gil, do Faustão e da Xuxa, fazem inflacionar o mercado gospel. Se aqueles cantores que se apresentaram no Festival já cobravam cachês exorbitantes, imagine agora. Entre eles, há quem cobre 60 mil reais para supostamente louvar a Deus. Ora, se é para ganhar dinheiro com isso, que se tornem cantores seculares. Certamente seria mais digno e produtivo, inclusive para o Reino de Deus. Quanto aos que se dedicam ao ministério, que se contentem em viver de ofertas voluntárias e das vendas de seus Cd's.

O mercado gospel anda tão promissor (daí o festival chamar-se 'promessas'), que muitos artistas seculares já anunciaram que vão gravar Cd's dedicados a este filão, entre eles, Latino e Belo. O público evangélico fornece um enorme rebanho, ovelhas cheias de lã, prontas para serem tosquiadas.

Se, de fato, o objetivo dos cantores que lá se apresentaram era evangelização, então, por que escolheram cantar canções sem qualquer apelo evangelístico, cheias de clichês e jargões somente compreensíveis no meio evangélico?

Foi uma oportunidade e tanto. Disso ninguém duvida. Mas terá sido aproveitada adequadamente? 

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