29 de julho de 2012

Estigmas e paradigmas da Igreja




Por Hermes C. Fernandes

Num domingo desses, eu estava na fila de uma lanchonete fast food com minha filha Revelyn. Enquanto observava os crentes que lá estavam, fiquei a imaginar o que teriam aprendido naquele dia. Será que a mensagem que ouviram reverberaria durante a semana? Será que afetaria positivamente seu comportamento cotidiano? Seriam eles pessoas melhores a cada culto?

Aquela inquietação me levou a refletir durante toda a semana sobre a abordagem que cada igreja faz acerca do Evangelho. Cheguei à conclusão que há, pelo menos, três tipos de abordagem em voga em nossos dias. Vamos chamá-las de paradigmas:

# Paradigma Escapista

Este mundo está prestes a acabar, e nossa missão é impedir que as pessoas sejam condenadas ao inferno, e garantir que o céu seja devidamente povoado.

As palavras chaves deste paradigma são: SALVAÇÃO, ALMAS, SANTIDADE, ARREBATAMENTO, TRIBULAÇÃO, PROVAÇÃO, CÉU, PECADO, INFERNO, ORAÇÃO, JEJUM.

Igrejas com tais ênfases tendem a eleger como seu principal inimigo o mundo, seguido da carne e do diabo.


Suas maiores preocupações são de ordem moral e espiritual

Resultado:

Pessoas piedosas, às vezes, legalistas, porém, descomprometidas com a realidade ao seu redor. Não há o que se fazer para mudar o mundo, logo, a alternativa é esperar por um arrebatamento secreto que as tire daqui e as leve para o céu. Há exceções, apesar destes viverem certa incoerência com aquilo que creem. Como justificar, por exemplo, que alguém que uma congregação que creia desta maneira invista milhões na construção de uma catedral? Já que Cristo está às portas, por que não gastar tais recursos para resgatar o máximo de almas do inferno? No passado, alguns resolveram levar isso às últimas consequências, tirando seus filhos da escola, vendendo o que tinham e investindo tudo na evangelização. Pelo menos, foram mais coerentes do que a maioria dos atuais. Porém, o mundo não acabou como previram. E enquanto a igreja retrocedeu, a ciência  e a cultura foram entregues nas mãos de incrédulos. Se antes, grandes cientistas professavam sua fé em Jesus, agora, boa parte deles é constituída de céticos e ateus. Hoje, a sociedade enxerga os cristãos como um povo sem instrução, alienado, massa de manobra nas mãos de líderes inescrupulosos. Lamentável...

Pontos positivos: Os membros destas igrejas costumam ser pessoas honestas, recatadas, comprometidas com a versão do Evangelho que conhecem. Em que pese a politicagem que acontece por trás dos bastidores, essas igrejas são as que mais investem em evangelização e missões, e por isso, são as que mais crescem em número.

Custo:

A relevância.

# Paradigma Oportunista

Já que nossa estada aqui é passageira, nossa missão é garantir que as pessoas tirem o melhor proveito dela.

As palavras chaves deste paradigma são: AUTOESTIMA, BEM-ESTAR, PROSPERIDADE, CURA, OFERTA, SACRIFÍCIO, DÍZIMO, CORRENTE, GOSPEL, MEGAIGREJAS, CATEDRAIS, POLÍTICA, CRESCIMENTO, CONQUISTA.

Os inimigos eleitos por tais igrejas são o diabo, a doença e a miséria.


Suas maiores preocupações são de ordem política e econômica

Resultado: Pessoas voltadas para si mesmas, para o seu bem-estar, seus sonhos, seus projetos. Uma vida centrada no ego faz com que sejam presas fáceis nas mãos de aproveitadores. Tornam-se também insensíveis ao sofrimento alheio e às injustiças. Geralmente, aliam-se aos poderosos em busca de vantagens econômicas. Para ter o que contar no próximo culto, vale tudo, inclusive atitudes antiéticas. Se nas igrejas escapistas os crentes tendem ao legalismo, nas igrejas oportunistas os crentes tendem ao fetichismo. Muitos acham que podem manipular os poderes sobrenaturais a partir de amuletos, palavras mágicas, sacrifícios financeiros, jejuns, lugares sagrados, etc. Trata-se de uma fé supersticiosa, sem embasamento nas Escrituras. Porém, seus líderes, quando doentes, não recorrem aos mesmos expedientes fantasiosos, antes, procuram seus médicos, submetendo-se a tratamentos convencionais. Onde está sua fé, afinal? Quando um crente fica doente, logo é acusado de não ter fé, ou de não ser fiel nos dízimos, ou ainda, de estar em pecado ou sob a influência de demônios. Por que duas medidas? Por que os líderes podem adoecer, mas os fiéis jamais?

Ponto positivo: Ainda que por uma motivação errada, os membros dessas igrejas costumam ser aguerridos, 100% comprometidos com a versão do Evangelho que conhecem.

Custo:

A credibilidade.


# Paradigma Conformista

Não há o que se fazer para mudar os rumos deste mundo. Logo, nossa missão é a de sermos guardiões da verdade, indicando o caminho para os eleitos, e aguardando o novo céu e a nova terra.

As palavras chaves deste paradigma são: PECADO, GRAÇA, REDENÇÃO, ETERNIDADE, REFORMA, PREDESTINAÇÃO, ELEIÇÃO.

Os inimigos eleitos por tais igrejas são as HERESIAS.


Suas maiores preocupações são de ordem doutrinária e litúrgica

Resultado: Indiferença. Falta de paixão pelas pessoas. Nossa paixão é focada na doutrina. Amamos a verdade, não as pessoas. Sentimo-nos bem conosco mesmo por termos sido escolhidos por Deus, mas nos mantemos indiferentes para com aqueles que estão à nossa volta, por desconhecermos se são ou não alvos da escolha soberana. Não há empenho evangelístico, pois, afinal, os escolhidos virão de qualquer maneira. Ainda que historicamente tais grupos tenham sido responsáveis por missões ao redor do mundo, atualmente, a maioria está voltada para dentro de si, lutando pela ortodoxia e liturgia.

Ponto positivo: As Escrituras são ensinadas com zelo, produzindo crentes de caráter, comprometidos com a doutrina do Evangelho e com os valores defendidos pela igreja ao longo dos séculos.

Custo:

A simpatia.


# Paradigma Reinista

As palavras chaves deste paradigma são: GRAÇA, REINO, FUTURO, GERAÇÕES, JUSTIÇA, SUBVERSÃO, REVOLUÇÃO, RESTAURAÇÃO, AMOR.

Este mundo pertence a Deus, e nossa missão é trabalhar para que a Sua vontade seja feita aqui na terra, como é feita no céu, conscientizando as pessoas a pensarem no  futuro, honrando as gerações que as antecederam e trabalhando pelas que virão. O foco não é o indivíduo, mas a coletividade.

Nosso principal inimigo é a INJUSTIÇA.


Suas maiores preocupações são de ordem ética e social

Resultado: Gente apaixonada pelo futuro, que pensa mais nas gerações do porvir do que em si mesma.  Zelosa com o meio-ambiente. Engajada na transformação da sociedade. Politizada, porém, não ingênua a ponto de ser massa de manobra na mão de líderes gananciosos. Consciente de que a igreja não pode comprometer-se com partidos, candidaturas ou ideologias, sob pena de perder sua isenção profética. A transformação não começa de cima pra baixo, mas de baixo pra cima. Os políticos atuais são o suprassumo da sociedade, e refletem o estado em que estamos. É a sociedade que fornece ao mundo os maus políticos, os policiais corruptos, os criminosos, etc. Somente a proclamação do Evangelho em sua integralidade poderá reverter este quadro. A igreja deve produzir agentes transformadores que, uma vez infiltrados em cada setor da sociedade, devem promover a restauração de suas estruturas. Assim, a igreja cristã recobrará seu papel subversivo na História. 


P.S. A título de analogia, digamos que o paradigma escapista equivale a um barco que se nega a ancorar no porto, mantendo distância segura do continente e oferecendo botes pra quem deseja nele embarcar. O paradigma oportunista equivale a um avião que pretende acessar a terra vindo do ar, por cima, em grande estilo, prometendo a todos os seus passageiros uma viagem agradável na primeira classe. O paradigma conformista pode ser comparado a um carro que insiste em chegar ao seu destino pela rota apontada pelo GPS, ainda que para isso tenha que enfrentar um trânsito caótico. Rotas alternativas, nem pensar. Não vale a pena o risco de parar pra consultar um transeunte. O paradigma reinista seria o metrô, que sem chamar a atenção pra si, posto que transita por baixo da terra, vai avançando discretamente rumo ao seu destino, parando em cada estação, tomando e dispensando passageiros à medida que segue seu caminho.

Fonte:http://www.hermesfernandes.com/2012/07/a-igreja-e-seus-paradigmas.html
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