13 de abril de 2017

Sucesso de bilheteria, filme “A Cabana” é acusado de heresia por parte dos evangélicos

A aposentada Rosa Maria, 67, achou Deus a sua cara: “É gordinha e pretinha como eu”. Ela ainda está com os olhos inchados de “chorar mais que cortando cebola” com “A Cabana”, após a primeira e lotada sessão de sábado (8) no shopping Metrô Santa Cruz, zona sul de São Paulo.
O filme traz Octavia Spencer como um Ser Supremo que gosta de fazer torta de maçã, ouvir Neil Young e jogar conversa fora com o filho Jesus, tipo árabe barbudo de jeans e camisa xadrez, e o Espírito Santo, uma jovem oriental que atende por Sarayu.

A evangélica Rosa faz parte do público ­alvo da distribuidora Paris Filmes, que contratou a 360 Way Up, empresa focada no marketing cristão, para ajudar no lançamento. A estreia foi promissora: 544.641 espectadores em 670 salas de cinema nos primeiros quatro dias em cartaz, o bastante para garantir a “A Cabana” a segunda maior bilheteria do fim de semana no Brasil, só atrás de “A Bela e a Fera”. Poderia ter sido melhor.
Os motivos que levaram Rosa a gostar tanto da obra, afinal, são os mesmos que afastam outros tantos evangélicos.
Dar uma forma humana a Deus é uma das muitas heresias que povoam “A Cabana”, segundo correntes teológicas que guiam a fé evangélica –o homem feito à imagem e semelhança de Deus, como diz a Bíblia, significa que “somos obras de Suas mãos, mas não a personificação d’Ele”, explica o teólogo Marcelo Rebello.
Nos EUA, vários blogs se dedicaram a malhar primeiro o livro do canadense William P. Young, um best­seller que vendeu mais de 25 milhões de cópias, e agora o filme homônimo. O debate chegou ao “Christian Post”, referência global de jornalismo religioso, que, em março, publicou o artigo “Seria ‘A Cabana’ Cristão ou New Age?” Conclusão: “A igreja americana está faminta por discernimento e sufocando com heresia”.
Autor de “Burning Down the Shack” (queimando a cabana), James DeYoung vê como maior “despautério bíblico” a “doutrina da salvação universal” que permeia a narrativa. Em miúdos: frases do Deus de “A Cabana” sustentam que Seu amor é grande o bastante para salvar a todos, não importa o quanto se errou e se houve arrependimento. Para DeYoung, papo de herege. “Assim não há a noção de inferno permanente, nem para o Diabo e seus anjos. A história não diz como as pessoas podem vir a Deus e achar perdão”, afirma à Folha de S. Paulo.
O enredo: Mack (Sam Worthington), um pai de família pouco crente, é convidado por Deus (mulher “negra, enorme e sorridente”, como descreve o livro) para voltar à cabana que foi palco de uma tragédia familiar três anos antes. A certa altura, confessa que sempre pensou no Todo­-Poderoso com um velhote de barba branca. “Acho que esse é Papai Noel”, rebate Ele/Ela.
“O principal problema teológico da narrativa é a forma como a Trindade é retratada: um Deus que não é onisciente, um Jesus que não é divino e um Espírito Santo que não regenera o pecador”, diz à reportagem Leonardo Galdino. Ele criticou o livro no blog “Voltemos ao Evangelho”. “Torna­se patente o desprezo pela igreja e pela adoração corporativa, ressaltando­se e a valorização da experiência pessoal, como bem reza a cartilha pós-­moderna”, escreveu, destacando um trecho: “Mack estava farto […] de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam provocar qualquer mudança real”.
Ygor Siqueira, da 360, reconhece que algumas partes podem causar estranhamento a evangélicos. “Em duas cenas falei assim: ‘Pô, puxa mais para o espiritismo’. Nelas, o protagonista interage com duas pessoas mortas, algo incoerente com o credo evangélico. Mas, para ele, a polêmica não atrapalha a carreira do filme. Pelo contrário. “O boca a boca está forte. Uns criticam, outros falam bem. A Octavia como Deus talvez choque no começo, mas depois passa.”
Para divulgar o filme, ele convocou lideranças evangélicas, inclusive a cantora recordista de vendas Aline Barros. Ela foi ao Facebook elogiar a a história que fala sobre cura “de um jeito surpreendente!!!”. Para DeYoung, “vivemos numa era de crescente analfabetismo bíblico”, daí a boa repercussão de “A Cabana”. Ainsa que crítico à narrativa, Galdino é contra boicotar o filme. Importa mais “examinar tudo e reter o que for bom, conforme orienta o apóstolo Paulo”.
(Folha de S. Paulo)
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