5 de fevereiro de 2012

Cristianismo sem Cristo




Estou lendo Cristianismo sem Cristo: o Evangelho alternativo da igreja atual, de Michael Horton. Só para dar um “gostinho”, algumas passagens do primeiro capítulo. Bom final de semana a todos.
Como seriam as coisas se Satanás assumisse por completo o controle de uma cidade? Mais de meio século atrás, o pastor presbiteriano Donald Grey Barnhouse, em seu sermão semanal, descreveu o que imaginou que seria o cenário, sendo transmitido nacionalmente pela rádio CBS. Barnhouse especulou que, se Satanás assumisse o controle da Filadélfia, todos os bares seriam fechados, a pornografia seria banida e as ruas imaculadas ficariam cheias de pedestres bem-arrumados que sorririam uns para os outros. Não haveria xingamentos. As crianças diriam “sim, senhor” e “não, senhora”, e as igrejas estariam cheias todos os domingos… Onde Cristo não seria pregado.
É fácil desviarmos a atenção de Cristo como a única esperança para os pecadores. Quando tudo é medido pela nossa felicidade e não pela santidade de Deus, o sentimento de sermos pecadores se torna secundário, talvez mesmo ofensivo. Se formos um povo bom que perdeu o caminho, mas com instruções e motivações corretas, podemos nos tornar pessoas melhores, precisamos apenas de um treinador de vida, não de um redentor. Ainda podemos emitir parecer favorável a uma visão elevada de Cristo e à centralidade de sua pessoa e obra, porém, na prática, não estamos “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé” (Hb 12.2). Um monte de coisas que nos desviam de Cristo nestes dias são, de fato, boas mesmo. A fim de distrair nossa atenção, tudo o que Satanás tem a fazer é lançar diversos modismos espirituais, cruzadas morais e políticas, bem como outras operações “relevantes” em nosso campo de visão. Focalizar a conversa em nossa pessoa – desejos, necessidades, sentimentos, experiências, atividades e aspirações – nos estimula. Até que enfim, estamos falando de algo prático e relevante.
Por mais instigante que a ilustração de Barnhouse pareça, ela é apenas uma elaboração de uma observação, feita ao longo da história da redenção. Onde quer que Cristo for, verdadeira e claramente, proclamado, Satanás estará presente, fazendo oposição máxima. As guerras entre as nações e as inimizades nas famílias e bairros nada é mais que a vigília da cauda da serpente, enquanto busca devorar  a igreja. No entanto, mesmo nessa busca, ele é mais sutil que imaginamos. Ele nos embala para dormir enquanto aparamos nossa mensagem para caber na banalidade da cultura popular e invocamos o nome de Cristo por qualquer coisa, exceto pela salvação do juízo vindouro. Embora, sem dúvida, ele instigue seus discípulos na terra a perseguir  e a matar os seguidores de Cristo (com mais martírios no mundo todo, com uma média anual maior que em qualquer época anterior), Satanás sabe, por experiência, que semear heresia e cisma é muito mais eficaz. Embora o sangue dos mártires seja a semente da igreja, a assimilação da igreja pelo mundo silencia o testemunho.
Acho que a igreja de hoje está tão obcecada em ser prática, relevante, útil, bem-sucedida e, talvez, até mesmo aceita, que ela quase reflete em si mesma o mundo. Com exceção da embalagem, praticamente tudo que podemos encontrar na maioria das igrejas atuais pode ser satisfeito por um sem-número de programas seculares e grupos de autoajuda.
Cristianismo sem Cristo. Soa um pouco duro, não é mesmo? Um pouco superficial, às vezes desatento, até mesmo um pouco centrado no humano em vez de centrado em Cristo de vez em quando, mas sem Cristo? Deixe-me ser um pouco mais preciso sobre o que suponho ser a dieta normal de muitas igrejas por toda parte hoje: “Faça mais, esforce-se mais”. Acho que esta é a mensagem difundida além da ilusão atual. Ela pode ser exibida de uma forma mais antiga e conservadora, com ênfase recorrente nos absolutos morais e nas advertências sobre a queda no abismo do mundanismo que, muitas vezes, pode fazer-nos ficar em dúvida se, afinal, somos salvos por causa de nosso medo ou pela fé. [...]
Apesar das diferenças significativas entre as gerações e os tipos de ministério das igrejas, semelhanças essenciais permanecem. O foco ainda parece ser nossa pessoa e atividade, em vez de Deus e de sua obra em Jesus Cristo. Em todas essas abordagens, há a tendência de fazer de Deus um personagem coadjuvante no filme da nossa própria vida, em vez de sermos reescritos como novos personagens no drama da redenção de Deus. [...]
A julgar pelo seu sucesso comercial, político e nos meios de comunicação, o movimento evangélico parece estar crescendo. Mas ainda é cristão?
Não estou fazendo a pergunta levianamente ou simplesmente para provocar uma reação. Minha preocupação é que estamos chegando, perigosamente, perto do lugar da vida cotidiana da igreja em que a Bíblia é minada por citações “relevantes”, mas é, em grande parte, irrelevante em seus próprios termos; Deus é usado como um recurso pessoal, em lugar de ser conhecido, adorado e confiado; Jesus Cristo é um treinador com um plano de jogo bom para nossa vitória, em vez de um Salvador que já alcançou a vitória por nós; a salvação é mais uma questão de ter nossa vida melhor agora que ser salvo do julgamento de Deus pelo próprio Deus, e o Espírito Santo é uma tomada elétrica que podemos ligar para obter o poder necessário para sermos tudo o que podemos ser.
À mdedia que este novo evangelho se torna mais evidentemente americano que cristão, todos nós temos de dar um passo para trás e perguntar se o movimento evangélico é um movimento cultural e político crescente, que tem uma ligação sentimental com a imagem de Jesus mais que com o testemunho de “Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2.2). Não temos demonstrado, nas últimas décadas, que temos muito estômago para essa mensagem que o apóstolo Paulo chamou de “pedra de tropeço e rocha de escândalo” (Rm 9.33) e “loucura para os gentios” (1 Co 1.23). Longe de entrar em conflito com a cultura do consumismo, a religião atual parece não só estar em paz com o narcisismo, mas lhe empresta legitimidade espiritual.
Antes de lançar este protesto, devo esclarecer, com precisão, o que não estou dizendo. Primeiramente, reconheço que há muitas igrejas, pastores, missionários, evangelistas e cristãos de grande valor, ao redor do mundo, proclamando Cristo e cumprindo suas vocações com integridade. [...]
Acredito que não nos demos conta do grau de nossa esquizofrenia: todos os anos, condenamos a comercialização do Natal pela cultura, enquanto assumimos uma abordagem consumidor-produto-venda em nossas próprias igrejas, todas as semanas. Lamentamos a crescente secularização da sociedade, enquanto garantimos que as gerações, atualmente sob nossos cuidados, saibam ainda menos que seus pais e sejam menos moldadas pela nutrição pactual que sustenta a vida em Cristo ao longo de gerações. Ao mesmo tempo em que chamamos nossa rendição de missão e de relevância de cultura narcisista, acusamos os secularistas de esvaziamento do discurso público das crenças e dos valores que transcendem nossa gratificação instantânea. [...]
Discipulado, disciplinas espirituais, mudança de vida, transformação cultural, relacionamentos, casamento e famílica, estresse, dons espirituais, dons financeiros, experiências radicais de conversão, curiosidades do fim dos tempos (que, às vezes, parecem ter menos a ver com o retorno de Cristo que com a correspondência das manchetes de jornais) e relatos de superação de obstáculos significativos por meio do poder da fé – esta é a dieta constante que estamos recebendo hoje. Corremos o risco de nos consumir inteiramente, porque tudo gira em torno de nós e do nosso trabalho, e não ao redor de Cristo e de sua obra. Até mesmo importantes exortações e mandamentos bíblicos se tornam deslocados de seu indicativo ambiente evangélico. Em vez de o evangelho nos dar novas ideias, experiências e motivação para a obediência grata, depositamos o poder de Deus em nossa própria piedade e em nossos próprios programas.[...]
O máximo que qualquer um de nós pode fazer é dizer como Isaías, quando ele teve a visão de Deus em sua santidade: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5)
Nota da Estrangeira: para complementar esse artigo, abaixo uma pregação do Pr. Renato Vargens, que vi no As Pedras Clamam e que foi tirado anteriormente do Voltemos ao Evangelho.

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Um comentário:

  1. Cristianismo sem Cristo não é novidade aqui na Finlândia. Há um bom tempo a igreja Luterana tem deixado Jesus do lado de fora, e pregado belas filosofias de amor ao próximo e "achismos".
    Eles erguem templos para que as pessoas possam ficar em silêncio.
    A minha igreja, que é evangélica não-denominacional e não possui prédio próprio, foi proibida de usar uma das belas construções (igrejas) da capital porque o prédio é muito visitado por turistas e ninguém quer assustar os turistas com as nossas pregações sobre Cristo.
    É... isso é uma verdade por aqui. Tem te tornado cada dia mais difícil ser cristão na Escandinávia "liberal" de hoje. Orações são bem vindas.

    ResponderExcluir

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